Crónicas do meu viver // Por Luís Machado
1 - Cheguei a Vila Praia de Âncora com um sol radioso, o mesmo sol que brilhava quando, há muitos anos , para aqui vinha namorar , o mesmo sol que acalentou o crescimento de meus filhos e netos , o mesmo sol que há-de raiar para além de mim, esconder paixões e guardar estórias que , um dia , alguém há-de contar.
Sentado no muro de pedra que separa a avenida da praia , repetindo um gesto que durante muitos anos efectuava diariamente , olhava o mar , calmo como um lago , onde apenas suaves ondas se esmagavam na areia e corriam docemente pelos pés das crianças que faziam castelos...
Lá longe , no horizonte , o céu e o mar abraçavam-se num amplexo sem fim , juntando azuis e verdes e dourados de sóis que se miravam nas águas...
Às vezes, junto ao horizonte, passavam barcos que pareciam brinquedos de papel , daqueles que os pais fazem com jornais para os seus filhos brincarem nas pocinhas que o mar vai deixando na praia...
Absorto no meu pensamento, ouvia as sereias convidando ao amor , seus corpos esculturais rebolando-se nas águas mansas , esperando que algum Adónis as abraçasse para sempre!...
2 - Na avenida marginal, onde estou sentado , alguma entidade colocou painéis com as fotos de pescadores que dedicaram parte ou toda a sua vida à pesca do bacalhau , afrontando o mar em frágeis barcos , lá nos mares gelados da Terra Nova e Gronelândia. Eram centenas de heróis , alguns familiares de amigos nossos que nos contavam estórias de naufrágios e salvamentos em condições terríveis.
Viana do Castelo teve, no passado, a maior frota bacalhoeira do país e empresas dedicadas à pesca , de grandes dimensões , com barcos que , ainda hoje , povoam o meu imaginário, como o Santa Maria Madalena, o Santa Maria Manuela, o Vasco D'Orey e outros.
Na minha pré-adolescência costumava assistir, na doca comercial, à chegada dos barcos e ao descarregamento do bacalhau já salgado que era encaminhado para as empresas de seca , uma das mais importantes em Darque , na margem sul do rio Lima , onde se praticava a cura amarela , muito procurada e apreciada.
Como foi possível que tudo isto desaparecesse com o tempo e empresas e barcos fossem engolidos por falências e abates impensados, fruto de gestões incompetentes e politicas erradas.
Resta-nos como recordação de tudo isto , o Gil Eanes , o velho navio - hospital que dava assistência à frota bacalhoeira nacional e que um movimento exemplar de vianenses resgatou da sucata, recuperou, transformou em Fundação, com uma Pousada da Juventude e um Museu das coisas do Mar. E é vê-lo garboso , exibindo a sua beleza numa das docas comerciais , bem perto do centro da cidade , para usufruto dos vianenses e visitantes que o procuram aos milhares.
E se a tudo isto juntarmos o desaparecimento progressivo dos Estaleiros Navais que chegaram a empregar para cima de dois mil trabalhadores, compreende-se o sentimento de desânimo das gentes do mar que viram as suas frotas irem desaparecendo e hoje estão reduzidas à expressão mais simples.
O que é feito dessa Viana virada para o mar?
Resta a saudade e a procura de oportunidades noutras áreas e Viana tem tantas potencialidades!
3 - Há por aqui muitos brigantinos que por cá ficaram e constituíram família, alguns já na segunda e terceira gerações.
Sem perderem o amor à sua terra natal que permanece bem vivo, aqui se radicaram e desempenharam lugares de destaque na vida da cidade. De destacar a classe dos professores que se espalhou por todo o distrito, contribuindo com o seu saber para o desenvolvimento da terra que os acolheu e amou.
Assim também Bragança acolheu muitos vianenses que por lá foram ficando e aprenderam a amar.
4 - Hoje está a chover e tivemos de interromper as idas à praia... Ansiamos que o sol regresse! Os dias passam e aproxima-se o tempo de regressar., com o coração cheio de saudades, de estórias e recordações. Aproveitamos para visitar irmãos e suas famílias. Foi tempo de recordações e de saudades. E tantas estórias tinham já e ainda para contar! Fomos ao baú do tempo ressuscitar velhos amores, falar dos que partiram e estão no céu guardando o lugar aos que um dia hão-de chegar. Falamos de tudo!...
Como foi bela esta estadia em Vila Praia de Âncora..... Aquelas pedras , aquelas areias, aquelas dunas , aqueles mares, guardam recordações inolvidáveis de tempos felizes...
Foram várias gerações que por ali passaram e amaram sob o céu quente de Agosto : destinos diversos , sortes diferentes , profissões as mais díspares, militares , professores , médicos , gestores, tantas outras, mais ou menos importantes , irmanadas numa amizade que não morre, antes se fortalece com o tempo, cimentada pelas saudades que enchem nossas almas...
No decorrer da longa conversa que hoje mantive com alguns dos meus irmãos, um deles lembrou uma das minhas paixonetas de adolescente, uma artista de circo, contorcionista, linda, escultural! Chamava-se Florbela, casualmente o mesmo nome da minha filha mais velha, a nossa Bê. Transcrevo uma quadra que os meus 18 anos de então, me ditaram, em homenagem à bela Florbela:
"Florbela me chamaram
quando a este mundo vim
umas flores me invejaram
outras não vivem sem mim. "
Eu era, talvez, uma dessas flores, quiçá um cravo vermelho, sonhado nessa quimera da adolescência e recordado agora com a ternura dos meus cabelos brancos....E que saudades, Deus meu!
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