sábado, 6 de fevereiro de 2016

SAUDADES E CARNAVAL

Crónicas do meu viver // Por Luís Machado

1 - Dentro de alguns dias regressarei a Bragança depois de uma ausência prolongada de algumas semanas. Já começava a ter saudades e é sempre bom regressar ao lar e ao convívio dos amigos, embora me sentisse bem junto dos familiares onde me encontro. 
Aproveitei o tempo para fazer, mais uma vez , uma romagem de saudade à minha terra natal, Viana do Castelo , onde passei alguns dias com familiares. À medida que os anos passam, sinto uma saudade maior dos lugares e pessoas que povoam o meu imaginário e me contam histórias que a memória me traz ao presente. Calcorreei a parte mais antiga da cidade, alindada por obras de restauro e conservação de algumas das suas ruas velhinhas, apreciei a zona portuária, o navio Gil Eanes que contínua garboso e bem conservado e recordei casas e amigos que por ali moravam, alguns já partidos desta vida, outros que se transferiram para outras zonas mais novas, alguns que, simplesmente, migraram ou emigraram à procura de melhores condições de vida. Por mais de uma vez me desloquei à Praia Norte, local paradisíaco dos meus tempos de menino e moço, e ali , numa das esplanadas, assentava arraiais, tomava o meu café, lia o jornal e contemplava o mar , a sua penedia batida pelas ondas que se erguiam e desfaziam em espuma rendilhada, quase junto ao bar. Havia gaivotas esvoaçando, gritando os seus pios roucos, pousadas nos rochedos, nadando sobre as águas ou bicando as vidraças do bar em que me encontrava. Lá longe, no horizonte, passavam barcos, tão pequeninos que mais pareciam os barquinhos de papel dos meus poemas...
E ali me deixava ficar durante algum tempo, poetando, sonhando, recordando... E como eram belas as recordações que eu tinha daquela praia velhinha dos meus tempos de menino, praia selvagem , sem avenidas , sem muros de suporte, com uma penedia extensa onde apanhávamos, sem licenças ou fiscalização, caramujas , lapas , mexilhões, ouriços do mar , caranguejos e outros, que levávamos para casa em grandes ou pequenas sacadas. Às vezes lá apareciam uns polvitos e pequenos camarões, fugidos ao cardume, que nos iniciavam no gosto dos seus irmãos mais velhos e das lagostas e lavagantes, santolas e outros que, raramente estavam ao alcance da nossa débil economia.... Mar inspirador de poetas, imensidão que nos levou aos quatro cantos do mundo, local de trabalho dos velhos marinheiros, tez tisnada pelo sol e pelo sal daquelas águas que tantas vezes sulcaram. Lá longe, no horizonte, moravam muitos dos meus sonhos e , com o por do sol , muitos deles feneceram, afogados na realidade da vida.
E como era lindo o por do sol na minha praia velhinha...Era como se, ternamente, levasse os meus sonhos dóricos para um amanhã que talvez houvesse...Muitos não regressavam nesse amanhã distante... Por trás de mim, erguia-se, altaneiro, o monte de Santa Luzia e a sua imponente basílica, do zimbório da qual se avistava o mundo... Era , segundo um oficial da marinha inglesa com quem convivi na juventude , a paisagem mais bela que observara nas suas andanças. 
Vou regressar a Bragança para matar saudades, levando outras saudades, saudades de tudo, da família, das paisagens, do mar, das recordações de amores que ali vivi, das amizades que permaneceram no meu coração, da juventude que morou em cada canto por onde passei, tão distante como os sonhos que nela moravam...

2 - É tempo de carnaval! Vêm-me à memória outros carnavais em que fui feliz, lá longe, nos confins da idade, sem máscara nem nariz de palhaço , nesta palhaçada em que se transformou s vida, em que representamos histriónicos papeis no dia a dia. Se fosse possível desafivelar a máscara de cada um que passa, se fosse possível ver no semblante o que a mente de cada um pensa e no coração o que , realmente , sente, faríamos como o palhaço que ri quando ,às vezes, lhe apetece chorar , tal a hipocrisia e o desamor que se apoderou das gentes. Mas é Carnaval, tudo é permitido, nada faz mal , encenam-se pantuminas e comem-se butelos, nesta festa que marca o adeus à carne , nestes dias que antecedem a Quarta Feira de Cinzas. Por todo o mundo há festas e cortejos, com especial relevo para o carnaval brasileiro e o seu samba, montra de beleza e descontração, com muitos exageros à mistura. Desejos recalcados, emoções contidas, prazeres que se procuram, loucuras que se desejam, tudo se esconde debaixo das máscaras que se afivelam e tudo explode neste período de liberdade total.
Em muitas localidades, encenam-se a queima de um boneco que, após a feitura do testamento , é queimado e destruído, exprimindo o cancelamento das culpas passadas. Por cá , muitos bonecos seria preciso queimar.! Mas isso são outras contas e não vamos estragar a alegria breve deste carnaval necessário para aliviar o stress.
Atirem-se ao butelo e às cascas, divirtam-se, bailem o samba ou outro ritmo de que gostem, afivelem a máscara, deixem a tristeza em casa , assumam a sua verdadeira natureza , Limpem a mente , aliviem o coração.
Quarta feira, para os cristãos, começa a quaresma. Será tempo de reflexão. Simbolicamente acaba-se a carne, fonte de prazer. Vamos tratar da alma!

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